tropecei num sorriso teu

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25 de maio de 2017


Enquanto você mandava aquela música, eu estava me ocupando com as nossas conversas e pensando cara, isso aqui daria um livro. Tá, talvez seja um pouco de exagero um livro inteiro, mas uns bons textos, por quê não? Vou te confessar, num sincericídio torto, que não estou conseguindo me desapegar das palavras e dei um jeitinho maroto de guardar tudo comigo. Eu sempre sorrio em meio ao caos e eu busco esse caos que é para poder sorrir.

Decorei quase todas as melhores partes e talvez, num outro surto de sinceridade, te conte quais partes que dá vontade de tatuar na alma (como se já não estivessem tatuadas). A tua lembrança é a melhor delas, depois vem o texto. Aquele, que não sei o autor. E aquele que tu escreveste, por acaso. Tá quase decoradinho mesmo, letra por letrinha.

Eu tropecei ontem num sorriso teu, que tinha caído sem querer das minhas mãos. Tá acontecendo sempre. Basta a rotina me puxar para longe, que eu tropeço em algo teu, que me traz para perto. Aí eu dou um sorrisinho maroto, pego o pedaço de ti e guardo cuidadosamente no bolso da camisa, bem pertinho do coração, e sigo andando. Tem vezes que o pedaço que é todo teu, sou eu mesma. Aí fica bizarro, porque não dá para me guardar no bolso, sabe? Aí eu fico me encarando e pensando que fazer comigo — e os pensamentos são os mais variados possíveis. E quase sempre é você que vence e me inunda inteira, da cabeça até a pontinha do pé. Treme. E eu deixo levar.

Aí que, quando você mandava a música, eu estava guardando as palavras. E amarrei cada frase em uma memória bonita. E cada memória bonita em uma música. E cada música em cada momento e todo momento uma saudade. E virou um caos bonito. Eu sempre sorrio em meio ao caos e eu busco esse caos que é para poder sorrir...

originalmente postado no Jornalismo de Boteco

MAFÊ PROBST
Engenheira, blogueira, escritora e romântica incorrigível. É geminiana, exagerada e curiosa. Sonha abraçar o mundo e se espalhar por aí. Nascida e crescida no litoral catarinense, não nega a paixão pela praia, pelo sol (e pelo frio) e frutos do mar.

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quatro minutos e meio

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23 de maio de 2017


Estava chovendo do lado de fora e do lado de dentro do quarto. Esteban tocava estridente no notebook, fazendo chiar o som, que implorava que eu diminuísse o volume. Mas, como comecei contando, estava chovendo e eu precisava de algo que gritasse mais alto que o barulho das gotas que batiam — em mim e na janela. Cruzei os dedos torcendo para que, pelo menos, o som não estourasse, haja vista o caos que estava por todos os lados, quando a última bomba caiu no meu colo.

Não liga para essas linhas que rascunho sem sentido. Acho que é só o inferno astral anunciando que acabou de chegar. Veio junto da chuva. Eu fiquei admirando a chuva e fazendo coro, porque sim. Não me dei conta até sentir salgar a boca. Aí eu sorri, por ser boba. E na ponta do meu sorriso, vi o sol desabrochar nas nuvens e um pedacinho azul de céu.

Continuava chovendo, lá e cá. Mas tinha um solzinho, aqui e acolá. Respirei fundo, vinte vezes. Fechei os olhos, me encarei por dentro. O som continuava estridente, berrando verdades e outras coisas bonitas, denunciando meu novo vício musical, num repeat alucinado... O fato é que tinha um sol no canto dos meus lábios, e um sorriso bonito no céu. E, apesar de tudo, sigo tranquila, na certeza que tempestade nenhuma dura para sempre.

Essa, em particular, durou quatro minutos e pouco mais de meio.

MAFÊ PROBST
Engenheira, blogueira, escritora e romântica incorrigível. É geminiana, exagerada e curiosa. Sonha abraçar o mundo e se espalhar por aí. Nascida e crescida no litoral catarinense, não nega a paixão pela praia, pelo sol (e pelo frio) e frutos do mar.

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nosso ponto final

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21 de maio de 2017



Eu não quero que a nossa história termine sem, ao menos, um ponto final, sabe? Não sei lidar com esses livros que, num virar de páginas, se acabam. A gente volta para a última frase, relê, vira a página e a mesma está em branco, anunciando um fim premeditado. O livro acaba sem concluir e deixa aquele nó ruim na garganta e dezenas de interrogações. O autor é odiado por uns dias, a gente alimente suposições por outros tantos até cair no esquecimento. Não quero que a gente, eu e você, termine assim. Um fim sem final. Não está certo.

Atualmente, eu e você, estamos como numa música. Começa tímida, embala no refrão, aí ela vai morrendo na voz do cantor, sabe como? Tem música que termina-terminada, mas tem umas músicas que o refrão vai diminuindo o tom, diminuindo até um sussurro e, num respiro, nada. Acabou. Mudou de faixa. Estamos acabando, lentamente. Feito música. Que outra forma a gente poderia terminar, se não feito música?

Mas essas músicas que terminam assim, terminam cheia de reticências e, como disse lá no começo deste texto, não quero que a gente termine sem ponto final. Parece um descaso, sabe? Não comigo, não contigo. Um descaso com a nossa história, como se tudo bem deixar os is sem pingar, os tês sem cortar e tudo fora de lugar. Bagunçamos nós dois e seguimos, deixando a bagunça para depois, acumulando poeira, acumulando memórias, acumulando tempo – e esquecimento. Descaso, vê?

Eu sei que a música tá morrendo lentamente. Eu sei que as reticências estão prestes à serem colocadas; e não quero. Fico pensando em como pontuar nós dois, em como encerrar um ciclo, em como virar a página e saber que ali, vai ter em letras garrafais um ‘FIM’ bem bonito. Uma casa em ordem, os sentimentos bagunçados, mas prontos para serem colocados no lugar.

Me ajuda a arrumar a bagunça? Aí te deixo ir. E não precisa mais voltar.



MAFÊ PROBST
Engenheira, blogueira, escritora e romântica incorrigível. É geminiana, exagerada e curiosa. Sonha abraçar o mundo e se espalhar por aí. Nascida e crescida no litoral catarinense, não nega a paixão pela praia, pelo sol (e pelo frio) e frutos do mar.

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