palavras mal ditas

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22 de março de 2017

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Meus discursos são tortos. Engoli as palavras nos últimos dias – nos últimos meses – e me vejo castigada por elas. É ruim demais trancar aquilo que quer voar lá fora. Sempre fui dessas pessoas que não trancafiavam as palavras, dando um jeito de soltá-las em papéis de carta amassados, diários cheios de segredos ou páginas em branco de um blog qualquer. Parei de fazê-lo, não me pergunte porquê. Eu repasso as palavras todos os dias, o tempo todo. Principalmente no banho. Enquanto a água lava meu corpo, as lágrimas lavam minha alma. Eu choro tudo aquilo que eu não digo. Alivia? Um pouco. Resolve? Não, honestamente, não.

Eu precisava anotar essas linhas que ensaio todos os dias. Eu precisava dar um jeito de calar o discurso que repasso todas as noites. Mandar um telegrama, um sinal de fumaça. Te escrever o roteiro, te narrar minha vida, me despir toda e fica nua – sem armaduras, bloqueios ou duplos sentidos. Te mostrar a alma, crua. As cicatrizes, as interrogações. O abismo gigante que me dá medo. Eu estou bem na beiradinha dele. O céu se agiganta sobre minha cabeça. Olho para baixo e não enxergo o fim dessa queda. Não sei se está tudo escuro demais ou se o abismo que é profundo em demasia...

Estou me encarando no espelho, tomando uma taça de vinho. Vejo na íris (castanha, verde?) um curta-metragem bonito, de uma vida inteirinha que não vivi. Meus olhos refletem um brilho saudoso. Vejo o sorriso sujo de carmim – e sorrio mais. Dou um gole de vinho e empurro de volta todas as palavras que ensaio dizer e não digo. Sabe, me declarei para você dia desses. Você não ouviu, porque estava dormindo. Eu quis te contar o tanto e o tudo, mas fiquei só naquelas palavrinhas miúdas, torcendo para que teu sono profundo não registrasse meu ímpeto. Segurei teu rosto entre as mãos e fiz uma prece. Dormi sorrindo.

A taça se esvazia, gradualmente. A cada gole dado, as palavras descem arranhando a garganta. Eu queria ter te narrado tanto da vida, ter aberto tanto o peito. Você me veria tão nua, crua e frágil. O sentimento ficaria ali, gritante, pulsando entre a gente... Eu ensaiei um discurso torto, mas cheio de verdade, de intensidade. Eu arrisquei dizê-lo. Eu arrisquei tanta coisa, mas desperdicei todas as oportunidades. E agora estou aqui, jogando umas palavras sem nexo para ver se aquieta um tanto esse tudo que quero dizer e, mais uma vez, me enrolo. Me faço e desfaço.

Me calo.

A gratidão que ela sente por lembrar das amigas que ela tem

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21 de março de 2017


Hoje ela acordou cedo, fez o café e olhou a paisagem catastrófica da cidade, passando pela tela da janela da varanda dela. Suspirou. Ainda era cedo. Tinha tempo para boas lembranças. Tempos atrás ela escutou de alguém que lembranças ruins não devem ser tomadas com café da manhã. Melhor evitar.

Lembrou da escola. Do colégio. Das amizades que fez. Do afunilamento das suas relações dos 15 até aos 18 anos. Lembrou da sua formatura e de como as meninas estavam diferentes. Lindas, maduras. De como se divertiram e se abraçaram naquele dia. Suas vitórias sempre tiveram aquele incremento de torcida e verdade.

Eram duas. No máximo três. E algumas que não se encaixavam na sinceridade que ela gostava. Mas que permaneciam porque, às vezes, é bom ter por perto aquele tipo de pessoa que ela não gostaria de ser. Só pra lembrar. Suas amigas eram sua fonte de energia. Seu calor humano. Aquele abraço de fora de casa, sem ser família, mas que tinha sangue correndo nas veias da alma. Por isso eram tão fortes, como se fossem nascidas da mesma barriga.

Sorriu. E gargalhou ao lembrar das histórias loucas. Histórias de dores, sofrimentos e amores que ninguém poderia saber, só elas. Que estão guardadas e trancafiadas naquele sentimento de laço. Até ali, ela tinha conhecido muita gente. Estudos, trabalhos, momentos de descontração. Mas, nada se compara ao que elas vivem até hoje. Se falam todos os dias. Conversam, riem, choram juntas. Pelo Whatsapp, o tempo todo. Já que a presença física vai distanciando com o passar da vida e a demanda de tarefas, a presença afetiva só se fortalece.

Sentiu sorte. Gratidão. Poucas, mas boas amigas. Não queria, nem desejaria mais nada além daquilo que ela tem. Ela conhece histórias de gente que não tem ninguém. Nem consegue sustentar-se amiga ou amigo de alguém por muito tempo. Paciência. Não sabem esses o que estão perdendo. O Whatsapp apitou. A primeira mensagem do dia. Era uma delas no grupo. A tela da janela voltou a trazer imagens da cidade atrapalhada e bagunçada. O relógio mostrava atraso. A saudade apertou e ela escreveu no grupo: “amo vocês”. Corações foram devolvidos.

Entrou no banho. Lavou a alma, vestiu a roupa.

Fez sua oração e saiu fortalecida pra vida, pela força que vem da força recebida das suas amigas. Sobre a mensagem de positividade no café da manhã, lembrou: tinha sido uma delas.


EDGARD ABBEHUSEN.
Baiano cá do Recôncavo. Vizinho de Edson Gomes, Sine Calmon, fã de Dona Canô e dos filhos que ela deixou no mundo. Aspirante a jornalista e sonhador de um mundo melhor. Tenho axé correndo no sangue. Amor no coração. E entre acarajé e Sushi, eu fico com os dois.
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ACASO, DESTINO OU SORTE?

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12 de março de 2017

Dezoito.

Esse foi o número de vezes que passei em frente a tua casa. Ensaiei bater somente duas vezes. As primeiras duas vezes. Depois decidi largar ao destino e só fiquei passando, esperando que um dia, por acaso ou sorte, eu me esbarrasse contigo. Coincidentemente. Bom, era isso que eu iria dizer. O discurso já estava mais que pronto, ensaiado, pinicando na ponta da língua.

— Que milagre você aqui! — eu exclamaria, numa careta falsa de espanto. Ou talvez eu realmente fosse ficar surpresa, porque não dá para estar cem por cento preparada para esbarrar no amor da vida.

Amor da vida? Não, eu não disse isso. Whatever. Então eu fingiria surpresa e você daria aquele meio sorriso que tanto adoro, mostrando covinhas nas bochechas — e eu lutaria para não soltar um suspiro audível demais nesse momento. Você passaria as mãos pelos cabelos e diria, levemente irônico.

— Mas ainda moro aqui. Esqueceu?

Talvez você piscasse, o que me faria contorcer todos os músculos e pensamentos só para me concentrar em: a) não suspirar audivelmente outra vez; b) não me jogar nos teus braços; c) todas as alternativas anteriores. Eu reviraria os olhos — isso sim é um fato. E fincaria as unhas na palma da minha mão, ao fechá-la com tanta força, só para me obrigar a ficar paradinha no lugar, esbanjando meu melhor sorriso.

Tava ensaiado. Eu fixaria meus olhinhos nos teus e torceria para que você pudesse ler todo o amor pulsando na minha retina. Haveria um silêncio constrangedor depois — outro fato — e eu estaria no alto do meu salto, balançando levemente os cabelos, me achando dona de mim e do mundo. Te abraçaria e respiraria com cuidado na base do teu pescoço, para você não perceber que eu estava, descaradamente, roubando teu cheiro para levar comigo. E torceria para que meu perfume ficasse nas tuas narinas e você ficasse doido de saudade de senti-lo nos teus lençóis.

Beijaríamos as bochechas. Você entraria em casa e eu seguiria caminhando, bem devagar, só para dar tempo de você associar o que tinha acabado de acontecer e voltasse gritando um Espera! no meio da rua. Eu esperaria e esconderia o riso antes de me virar. E você me chamaria para um café, que não tomaríamos, e nós nos perderíamos entre cama, sofás e chuveiro, jurando o amor que não deveríamos ter pontuado fim...

Dezoito. Esse foi o número de vezes que passei em frente a tua casa. Vi você entrar e sair catorze vezes.

E me escondi em todas elas.

Originalmente publicado no 'O AMOR É BREGA'.