horóscopo do dia

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23 de setembro de 2016


Parei de ler horóscopos.

Eras atrás, quando eu ainda acreditava em duendes, eu lia todo santo dia o que os astros tinham para me dizer. Tanto para o signo de Gêmeos — meu amado signo perverso e indeciso — quanto para o signo de Peixes que, reza a lenda e umas contas absurdas, é meu signo "ascendente". Whatever, nunca soube de fato qual a importância de ascendência, mas achava lindo quando Renato Russo cantava, lá no meio de sua big música "nunca brinque com um peixes de ascendente escorpião". Nessa época decidi que queria ter a porra de uma ascendência.

Aí que eu era boba e lia horóscopos.

Via o que o horóscopo do jornal tinha à me dizer, lia o horóscopo do site MSN, do Terra... Achava uma paquera e já tratava de descobrir se os signos combinavam (essa parte eu ainda acredito, culpa da mãe de um grande amigo meu que é craque em falar sobre relacionamentos baseado nos signos), se o futuro era promissor e etcéteras. Eu ficava um bocado feliz quando as previsões eram as mesmas em todas as leituras que fazia dos meus signos num mesmo dia. De fato, era uma felicidade simples e delícia. Eu era adolescente e acreditava em duendes.

Cheguei à me cadastrar num site que avisava quando Mercúrio estava no meu mês, quando Sol entrava na Casa 8 e saia da Casa 3, quando meu mapa astrológico estava em crise e de mal com a Lua e ainda vinha de brinde uma "sorte do dia", onde eu embaralhava - virtualmente - um baralho de Tarô e escolhia graciosamente uma carta. Confesso que eu trapaceava e acabava escolhendo outra sorte do dia, se a primeira não me agradasse, mas e daí? Uma coisa que eu aprendi ao ler horóscopos é que eu podia escolher a sorte que eu quisesse.

Então parei de ler horóscopos.



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o choro é livre

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15 de setembro de 2016

mafe-probst

Estou cada vez mais convicta de que sou uma manteiga derretida. Com o passar dos anos, aprendi que não se deve segurar o sal que quer escorrer dos olhos, então eu choro sempre que me dá vontade. Muitas das vezes me pego chorando, antes mesmo de sentir as lágrimas se formarem. Quando vejo, a gota de orvalho escorreu pelo rosto e pingou do queixo, deixando um rio fino desenhado sobre a maquiagem que cobre a pele.

Não ligo.

Tem choro que escapa em meio ao riso, quando a felicidade é notória. Quando a alegria é muito, só o sorriso não dá conta de transbordar, então os olhos ajudam. Essas lágrimas são as mais difíceis de sair, mas surgem. E, das lágrimas, são as mais lindas. Tem choro que escapa em meio à guerra de cócegas, em meio aos amigos que contam piadas idiotas ou numa mesa de jantar, com a família toda reunida, quando todo mundo ri de tanto gargalhar por causa de uma história que, de tão sem graça, acaba sendo engraçada.

Eu choro sempre que me emociono. Choro assistindo vídeo de catioros que se reencontram com seus filhotes, ou vídeo com pessoas que escutaram pela primeira vez, ou cenas de novela, quando o casal finalmente fica junto. Eu choro em aeroportos, tanto na chegada como na saída. E choro vendo o choro alheio, porque acho tudo bonito. Gosto dessas lágrimas que caem quando os pelos se eriçam de emoção. Choro em abertura de olimpíada, choro com vitórias dos outros. Tenho páginas e páginas de livros manchadas por causa das lágrimas que caíram. Chorei quando ergui meu diploma, chorei ainda mais quando abracei meus pais, senti o riso rasgar o rosto e deixar o olho bem pequenininho quando ouvi minha música a primeira vez.

Eu choro quando me machuco, seja trancando o dedo na porta ou batendo o dedinho na quina de algum móvel maldito. Se cortei o dedo, choro. Se cortei cebola, choro. Não é que seja um drama mexicano, mas tem muitas ocasiões que os olhos se enchem de lágrima. E tem aquele choro que vem quando o coração fica pequenininho. Quando o peito aperta. Quando sufoca.

Eu não sei lidar com esses apertos no peito. Já senti o peito apertar com histórias inventadas, em filmes e em livros. Tenho quatro livros que tive que parar a leitura, porque as lágrimas não cessavam e embaçavam a visão: Harry Potter, na batalha final, quando Fred morreu (chorei também relendo A ordem da Fênix, porque já sabia o final); chorei a vida lendo A Menina que Roubava Livros; me acabei de chorar em Um Dia e chorei outro tanto em Como Eu era Antes de Você. Esses me marcaram mais. Podia listar outros, mas as lágrimas foram mais tímidas.

O coração vira-e-mexe se espreme. Se eu choro com dor física, choro ainda mais com dor na alma. E já tive a alma despedaçada incontáveis vezes. Chorei quando a Madonna, minha cachorra, morreu. Foi uma das primeiras perdas memoráveis que tive. E chorei com a perda dos meus avôs, num intervalo de dez anos entre eles. O coração parece que para quando a gente chora. E alivia. Eu chorei a perda de amigos, chorei a morte de desconhecidos... Chorei a dor dos outros.

A verdade é que eu não sei muito bem lidar quando o coração aperta. A vida é um sopro cruel, às vezes. Hoje a ficção virou realidade e três crianças ficaram órfãs de pai. Hoje uma mulher ficou viúva. Ela e outras tantas, que não viraram notícia. Mas quando a morte vira notícia, a gente para e pensa. E pondera. E o coração fica pequeno e as lágrimas riscam o rosto (como estão riscando agora), porque dá um medo danado. O ator é só dois anos mais velho que meu pai, que ainda parece um garotão cheio de vida. Aí assusta. Era só um mergulho, mas virou reportagem. É mais uma data que vai ficar fincada numa lápide. É mais amanhãs, planos, histórias, momentos, risadas, gargalhadas, guerras de travesseiros, sopro de velas, natais, viagens, beijos e abraços que não acontecerão. É um ‘vamos marcar’ que nunca chega.

Estou cada vez mais convicta de que sou uma manteiga derretida. Então eu choro, antes mesmo de sentir as lágrimas se formarem. Quando vejo, a gota de orvalho escorreu pelo rosto e pingou do queixo, deixando um rio fino desenhado sobre a maquiagem que cobre a pele.

Não ligo. A vida é curta demais (embora pareça gigante). E se tiver beijo para dar, riso para rir, abraço para apertar — e lágrima para cair — que seja. Rótulos, são apenas rótulos: manteiga, chorona, insana, maria-mole, louca, sonhadora. O foco é saber viver antes que chegue nosso prazo de validade. 


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LIVRE COM VOCÊ

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14 de setembro de 2016

marina-couto

A liberdade sempre me atraiu.

Poder ser eu em todos os lugares, poder saciar minhas vontades sem depender de ninguém. Mas, recentemente, isso mudou. Minha liberdade se sentiu atraída por você. Assim, do nada. Minha liberdade te viu e pensou “opa, deve ser muito bom ser livre com você”.

Logo no primeiro abraço, minha liberdade se encaixou em você.

E desse encaixe tão perfeito surgiram sonhos, e uma vontade de viver esse mundão com você explodiu em mim. Sei que nem sempre sou a melhor companhia, fico com raiva, perco a paciência, adoro fazer um drama quando não sei como agir, mas tenho uma reserva infinita de amor pra te dar, a qualquer dia, a qualquer hora.

Tento sempre ser o meu melhor para não te assustar, mas, às vezes, perco o controle sobre mim mesma. E te peço desculpas por ser tão eu e te assustar. Espero que entenda que esse é apenas o meu mecanismo de defesa com o desconhecido. Há muito tempo não sabia o que era ser livre com alguém. Você me libertou de amarras invisíveis que a vida tinha me colocado e me mostrou que posso ser livre comigo, e com você também. Me mostrou que a felicidade pode ser melhor quando compartilhada com quem nosso coração se sente à vontade. Me mostrou que, mesmo quando estamos num dia ruim, sempre existe alguém que pode nos arrancar um sorriso de surpresa.

E você é esse alguém pra mim. Esse alguém que quero dividir minha liberdade. Esse alguém com quem quero ser livre. Só te peço que mesmo quando tudo estiver escuro, não me abandone, venha comigo procurar a porta que deixará toda luz entrar. E venha ser livre comigo.

E me deixe ser livre com você.


MARINA COUTO. 21 anos, estudante de Letras, forrozeira e apaixonada por palavras. Escrevo pra me sentir livre, não tenho destinatário certo, acho que assim fico mais desapegada e escrevo com a alma. Gosto de escrever para as outras pessoas saberem que não estão sozinhas. Quem vai ser meu interlocutor? Quem ler decidirá se aceita ser ou não. Se você se identificar, é um novo interlocutor, escreverei pensando que não estou só. Escreverei pra nós. 

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