Eu que não gosto de café

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24 de fevereiro de 2017

diego-henrique

Eu sei que é sexta à noite, mas eu não tenho mais a disposição de anos atrás pra ficar pulando de balada em balada. Inclusive, duvido se um dia eu já tive. Pizza e Netflix em boa companhia parece uma ótima ideia. Algumas mensagens depois e ela veio de pijama mesmo. Um conjunto formado por um shortinho bem largo nas coxas e uma brusinha da Adidas. Minutos depois e eu estava no chão da sala, completamente vidrado na barriga dela enquanto ela jogava Just Dance.

Ela deitou do meu lado e 'aquele-toque-mão-boba, o retorno' foi automático, assim como o arrepio. Vi todos aqueles pelinhos loiros arrepiados e a barriga dela contraída, enquanto nossos olhares premeditavam as cenas dos próximos capítulos.

A adrenalina faz bem pro corpo.

Aliada com outros hormônios e sensações, é um barril de pólvora esperando uma fagulha pra explodir em desejo. Começa com um pensamento e vai liberando sensações pelo corpo inteiro. Um arrepio na barriga é capaz de muitas coisas.

— Tu é um perigo.
— Tu diz isso porque ainda nem te contei as minhas intenções, que vão muito além das segundas.

Ela tenta fugir mais uma vez.

— Admite que você tem medo de fogo, menina.
— Não tem como ter medo de fogo quando se é o fogo.
— Tu é o próprio fogo? Hahaha! Não tá nem pra um fósforo apagado!
— Tu fode com a minha imaginação, sabia? Os segundos vão se estendendo..
— O tempo é efêmero, menina.

Um beijo bem dado pode parecer uma eternidade e levar meros segundos. A mão que desce pela barriga arrepiada enquanto os olhos se fecham... É tudo subjetivo e varia de acordo com o que a tua imaginação faz. O tesão é só uma resposta disso tudo. Fugir pode até ser uma opção, mas quanto mais você foge, mais preso fica.

— Toda essa sua certeza...
— O que tem ela?
— Tem provocações demais nela. Se bem que provocações nunca são de mais...

Ela não se aguenta de curiosidade e todos os motivos que ela tinha pra fugir caem por terra e já não valem mais de nada. A curiosidade invade em cada frase trocada. Ela desiste. Diz que não é de reprimir desejos e eu trago verdades: até dá vontade de mostrar quem manda, mas quem manda mesmo é a vontade!

Ela faz bem em desistir, coisa que eu já tinha feito desde a hora que ela entrou por aquela porta.

Ela diz que adora suspenses. Eu também. Suspender os braços e tirar a miniblusa que ela veste, já sem sutiã, pra se sentir mais confortável. Suspender toda aquela marra e me amarrar no corpo gostoso que ela tem, num nó de braços e pernas. São suspenses que deixam tudo mais gostoso.

Sou melhor encarando as minhas vontades e extraindo o que elas me dão de melhor. Graças a Deus, nessa noite,  foi você.

Ela balança a cabeça concordando comigo e me puxando pelo pescoço pra mais um beijo. Àquela altura eu já estava preso numa chave de pernas, sem fazer o mínimo esforço para sair. Alguns beijos, arrepios e sussurros depois, a buzina do entregador de pizza já não era mais problema nosso e os vizinhos tinham um barulho extra pra se preocupar.

A fome voltou pela manhã.

Eu, que não gosto de café, tô viciado no amargo do beijo doce dela depois de uma xícara. E ela não ficou só pro café. Decidiu Ficar pro resto da vida.


DIEGO HENRIQUE.
Prazer, Diego Henrique, 25 anos, Paulista e solteiro. Um aquariano na casa dos vinte, que brinca com as palavras e coloca os sentimentos na ponta dos dedos.
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Há você em todo canto

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23 de fevereiro de 2017

mafe
originalmente postado nO amor é brega

Quando dei por mim, já estava armada até os dentes. Eu lembro bem o dia que dei um passo para trás, mas achei que só iria recuar um tanto e nada mais mudaria. Como fui tola. Eu não havia percebido que meus pés já estavam fora do chão e, dar um passo para trás, nada mais foi que por os pés de volta em terra firme. Assim que a sola do sapato repousou tranquilamente no chão, comecei a me armar.

Você tem todas as armas para destruir minhas armaduras e eu finjo que não as vejo, por pura defesa. Eu me calo por defesa. Eu me escondo por defesa. Eu sou uma estúpida idiota, mas é tudo, tudo, tudo, só para me defender. E, quando dei por mim, já estava armada até os dentes – e absurdamente triste.

Eu estou pincelando uma realidade comum e escondendo os sentimentos debaixo do tapete, porque eu não quero lidar com eles. Mas eu sei que eles estão ali, porque a rotina não me deixa esquecer. Eu amo detalhes, sabe? E tem detalhes teus demais, por todos os lados, todos os dias. É uma música que invade minha playlist, uma imagem que aparece na minha timeline, um poema que ouvi na rádio, um sorriso que enviam sem querer e sem saber o sentido.

É você, ali; no riso, na música, no pôr-do-sol, na grama orvalhada, no vizinho que dedilha um violão surrado. E eu finjo que não (te)vejo, mesmo os pelos denunciando que detectaram a tua presença. Sem me dar conta, meus dedos procuram teu nome e eu quero contar qualquer besteira, como fazia antes de me armar por completo. Eu pensava menos, agia mais. E arrepiava inteira, o tempo todo.

Eu acordava buscando teu bom dia. E o dia só ficava bom depois daquele riso-dois-pontos-e-parênteses. Eu ria por fora. Eu sorria por dentro e era um desses sorrisos que tingem a íris, sabe? Quando o olho fica pequenininho de felicidade? Aí o olhar mudava o tom, entre um verde-folha-seca e um castanho-qualquer-cor e desviava os olhos do espelho que era pra não ver o tanto de você tinha na íris que acabou de brilhar também.

A rotina vai se arrastando. Pesada. Eu não procuro mais o bom dia, porque sei que ele quase não vem. E eu minto para mim que está tudo bem e que não faz falta. Mas faz, e eu fico miúda e até o céu muda de cor. Agora que dei por mim, estou armada até os dentes. E talvez você esteja cansado de me desarmar.

E, honestamente?, eu te entendo. E vou dizer que tudo bem, porque eu quero acreditar que está tudo bem também.

Doeu para aprender a ser feliz sozinha

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21 de fevereiro de 2017


Chorou por dentro por muitas noites. Culminou em uma dor que só ela sentia e que não adiantaria explicar a mais ninguém. Preferiu o disfarce até aprender, em um desses momentos confusos de mulheres fortes, que tudo aquilo lhe fortalecia.

Quando ele a deixou, ela revisou atenciosamente todas as fotografias do início e do meio, tentando encontrar onde exatamente foi o momento em que as coisas saíram do lugar para chegar ao final. Chorava ao encarar registros das fotos transformadas em filmes pela sua memória. Como no show em que ele a carregou nos ombros no meio da multidão. Nas flores que chegavam de repente no meio da semana. Dos beijos apaixonados no meio da rua. Das mensagens de texto ousadas durante a madrugada em que estavam distantes. Da tentativa  — frustrada —  de cozinhar algo pra ele, onde acabavam ligando para pedir uma pizza e riam até o dia amanhecer entre um episódio e outro de “How I met your mother”.

Seu coração acelerou a lembrar da viagem de dias que passou como se fossem apenas vinte e quatro horas. Sempre dizem pra ela que tudo que é muito bom, faz o tempo passar muito rápido. Lembrou como tinha passado. Guardou as lembranças na caixa enquanto chorava. Durante meses, ouviu músicas de desapego. Virou adepta ao modão sertanejo e bebia em baladas que produziam o efeito temporário da volta por cima.

Trocou “How I met your mother” por “Two and a Half Men” e dizia às amigas que seria, em breve, a versão feminina de Charlie Harper  —  não sabia ainda que o final do Ted Mosby foi o mais feliz. Chorou por dentro por muitas noites. Culminou em uma dor que só ela sentia e que não adiantaria explicar a ninguém. Preferiu o disfarce até aprender, em um desses momentos confusos de mulheres fortes, que tudo aquilo lhe fortalecia. Ainda mais.

E não adiantaria fugir de amores com medo das suas dores. Que o amor, quando tem que ser, sempre daria um jeito de encontrá-la. Então, frente ao espelho, suspirando por alguém que tinha acabado de conhecer, sorriu. Deitou sozinha numa noite badalada de sábado, colocou o celular no modo avião e continuou assistindo “How I met your mother” de onde tinha parado há meses.

Fez pipoca com leite condensado. Mais tarde, preparou um sanduíche. Fez um suco bem doce. Deu boas risadas. Lembrou, por alguns segundos, dos momentos felizes que viveu ao lado de alguém. Descobriu, naquela noite, a sua melhor, essencial e única companhia.

A dela mesma.


EDGARD ABBEHUSEN.
Baiano cá do Recôncavo. Vizinho de Edson Gomes, Sine Calmon, fã de Dona Canô e dos filhos que ela deixou no mundo. Aspirante a jornalista e sonhador de um mundo melhor. Tenho axé correndo no sangue. Amor no coração. E entre acarajé e Sushi, eu fico com os dois.
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