A VIZINHA DOS MEUS SONHOS

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26 de março de 2017


Eu estava levemente distraída quando a vi. O sol refletia em seu cabelo e o sorriso era o mais lindo do mundo. Ela dava as mãos para outra moça, conversando em silêncio segredos que eu não entendia. Fiquei parada, olhando a cena. A moça me viu olhando e riu para mim, fazendo meu coração parar por um momento. Caminhou em minha direção, estendeu a mão e se apresentou, calorosamente. Era minha nova vizinha. Ela e a esposa. A moça bonita, de sorriso perfeito iria passar a morar do ladinho de mim.

Nos víamos todos os dias. Ela me sorria todo dia. A vida foi passando e o sorriso da vizinha foi minguando. Um dia, encontrei-a chorando na porta de casa. Um rio de lágrimas pretas sujava seu rosto bonito. Ofereci um café e ela aceitou de bom grado. Ajudei-a a se levantar, ela me estendeu um braço e entramos em minha casa.

— Meu casamento acabou. — disse a vizinha, entre um gole de café e outro soluço.

Senti pena da dor da moça, mas meu ego sorria sem querer. A sensação era agridoce, sabe? Um pesar pelo fim, uma esperança pelas futuras possibilidades. Ela me narrou o relacionamento e contou das suas desconfianças, secou suas lágrimas na minha tolha de mesa e me agradeceu o café e a companhia. Perguntou se poderia vir novamente e eu, lógico, assenti.

Todos os dias eu a ouvia falar sobre a esposa. Todos os dias ela chorava, mas cada dia chorava menos. Estávamos nos tornando boas amigas, cúmplices até. O choro, gradualmente, transformou-se em riso e o riso logo se transformou em gostosas gargalhadas. A vizinha era mais feliz do lado de cá da porta.

Um dia, ouvi o fim. A esposa saiu gritando e batendo portas, acordando a vizinhança inteira. Minha vizinha estava aos prantos, corada de vergonha e querendo um lugar para se esconder. Eu a puxei para dentro de casa, fiz um chá para se acalmar. Ela aliviou a alma, despindo todo seu sentimento pela ex-mulher. Os palavrões não combinavam com ela, porque ela nunca os dizia. Eu comentei sobre isso e ela riu. Gargalhou. Era uma nova mulher.

A vizinha dos meus sonhos era uma nova mulher. E eu rezava, todos os dias, para que essa mulher, um dia, fosse minha.

Romeu e Julieta

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24 de março de 2017


Ela pede um texto, como quem pede o número 1 com batata média no Mc Donald's. Diz que pra mim é extremamente fácil fazer isso. Eu nego. Depois que a gente terminou, estou num relacionamento sério com a preguiça e só escrevo quando aquela voz na minha cabeça está me deixando maluco. Ela reclama. Diz que antes não precisava nem pedir e que uma foto bastava. Não nego. Se não a inspiração mais bonita, a mais gostosa ela é, sem dúvidas. Textos deliciosos como o beijo dela foram escritos nesses momentos de inspiração.

Ela provoca.

Eu sei onde isso vai nos levar e ela sabe que me tem nas mãos. Ela para. Pendurado no espelho o sutiã e, em frente a ele, uma menina fazendo a camiseta de camisola, deixando as coxas de fora, junto com um pedaço da calcinha. Eu encostei no batente da porta, enquanto ela me encara através do espelho.

— A parede não vai cair. Não precisa ficar escorando.
— Eu sei, menina. O problema não é a parede. Sou eu quem fico sem reação quando você faz isso, e preciso de um apoio.

Ela sabe que eu adoro quando ela me provoca assim. A lingerie é sempre preta. Aposta muito mais na desenvoltura do que na cor. Ela mistura a descrição com a sedução. Ela fica na ponta dos pés e com o bumbum empinado, pra pegar o cachorro de pelúcia no nicho. O nome que ela deu pro tal cachorro? Ágape. Uma das definições de amor.

Amor. É o que fazemos ali mesmo.

Ela empina de novo, mas dessa vez não é na intenção de alcançar algo. Minha mão invadiu o cabelo curto dela, se entrelaçando naquela mecha da nuca, enquanto ela armava e arqueava as costas. Ela coloca a minha camiseta, se aninha no meu peito e me proíbe de acender meu cigarro. Ela reclama da minha falta de amor próprio. Eu reclamo da falta que ela me faz.

Quando finalmente recupero meu isqueiro, perdido na bagunça da cama, ela me abraça por trás e me envolve com as pernas, enquanto alcança seu livro de cabeceira da vez. Aliás, outra vez. Ela ama Tristão e Isolda, mas, dos romances proibidos, estamos mais para aquele casal Shakespeariano que tem nome de doce de queijo e goiabada. A culpa é dela, eu avisei que era cilada.

Romeu deu uma bicada no veneno. Queria morrer para ontem. Eu acendo um cigarro sem pressa e curto o momento com a minha Julieta moderna, de cabelos curtos e afetos longos como as madeixas da Rapunzel e me apego à frase de Javier Velaza:

'Se nada nos salva da morte, pelo menos que o amor nos salve da vida'.

DIEGO HENRIQUE.
Prazer, Diego Henrique, 25 anos, Paulista e solteiro. Um aquariano na casa dos vinte, que brinca com as palavras e coloca os sentimentos na ponta dos dedos.
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palavras mal ditas

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22 de março de 2017

ouça enquanto lê:


Meus discursos são tortos. Engoli as palavras nos últimos dias – nos últimos meses – e me vejo castigada por elas. É ruim demais trancar aquilo que quer voar lá fora. Sempre fui dessas pessoas que não trancafiavam as palavras, dando um jeito de soltá-las em papéis de carta amassados, diários cheios de segredos ou páginas em branco de um blog qualquer. Parei de fazê-lo, não me pergunte porquê. Eu repasso as palavras todos os dias, o tempo todo. Principalmente no banho. Enquanto a água lava meu corpo, as lágrimas lavam minha alma. Eu choro tudo aquilo que eu não digo. Alivia? Um pouco. Resolve? Não, honestamente, não.

Eu precisava anotar essas linhas que ensaio todos os dias. Eu precisava dar um jeito de calar o discurso que repasso todas as noites. Mandar um telegrama, um sinal de fumaça. Te escrever o roteiro, te narrar minha vida, me despir toda e fica nua – sem armaduras, bloqueios ou duplos sentidos. Te mostrar a alma, crua. As cicatrizes, as interrogações. O abismo gigante que me dá medo. Eu estou bem na beiradinha dele. O céu se agiganta sobre minha cabeça. Olho para baixo e não enxergo o fim dessa queda. Não sei se está tudo escuro demais ou se o abismo que é profundo em demasia...

Estou me encarando no espelho, tomando uma taça de vinho. Vejo na íris (castanha, verde?) um curta-metragem bonito, de uma vida inteirinha que não vivi. Meus olhos refletem um brilho saudoso. Vejo o sorriso sujo de carmim – e sorrio mais. Dou um gole de vinho e empurro de volta todas as palavras que ensaio dizer e não digo. Sabe, me declarei para você dia desses. Você não ouviu, porque estava dormindo. Eu quis te contar o tanto e o tudo, mas fiquei só naquelas palavrinhas miúdas, torcendo para que teu sono profundo não registrasse meu ímpeto. Segurei teu rosto entre as mãos e fiz uma prece. Dormi sorrindo.

A taça se esvazia, gradualmente. A cada gole dado, as palavras descem arranhando a garganta. Eu queria ter te narrado tanto da vida, ter aberto tanto o peito. Você me veria tão nua, crua e frágil. O sentimento ficaria ali, gritante, pulsando entre a gente... Eu ensaiei um discurso torto, mas cheio de verdade, de intensidade. Eu arrisquei dizê-lo. Eu arrisquei tanta coisa, mas desperdicei todas as oportunidades. E agora estou aqui, jogando umas palavras sem nexo para ver se aquieta um tanto esse tudo que quero dizer e, mais uma vez, me enrolo. Me faço e desfaço.

Me calo.