senhor do tempo;

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6 de março de 2013



Milhões de pessoas morrem todos os dias. Milhões de artistas morrem também e eu não sei o nome de todos eles, eu não sei o trabalho de todos eles e, na maioria das vezes, sequer sei que viveram e deixaram de existir. São meros fantasmas na minha vida e não fizeram parte da minha história. Mas hoje a notícia dos jornais foi outra e foi triste. Anunciaram que encontraram o poeta das ruas morto em seu apartamento, em São Paulo, e eu fiquei triste e profundamente chateada. Tudo bem, eu não era fã do Charlie Brown, mas eu gostava (e muito!). Hoje em dia ouvia pouco, quase sempre o que tocava na rádio e arriscava por uma ou duas músicas no meu iPod e sempre, sempre, sempre, eu parei para pensar na letra daquelas músicas. Na melodia, nas rimas, na junção das frases que Chorão fazia. E eu tirava o chapéu para ele.


Pode parecer que faço parte das massas que se lamenta, mas que culpa eu tenho que grande parte das massas cresceu ouvindo Charlie Brown? Que culpa eu tenho de, por quatro (ou cinco) anos a fio, ter ficado beijando a grade do palco e repetindo junto com mais de oitenta mil pessoas “BROWN!” erguendo o braço numa coreografia simples, repetida cada vez que o Chorão, do palco, gritava “CHARLIE”? Não tenho como não lamentar a morte do Chorão, pois ele fez parte da minha adolescência, as músicas dele foram rabiscadas com letras coloridas em agendas carnavalescas, os trechos foram dedicados à paixões platônicas, divididos com amigos em festinhas americanas regadas a pipoca e refrigerante.

Então sim, pode parecer que eu faço parta das massas que se lamenta. Porque a massa que se lamenta tem alguma música dele marcando a história em algum momento. Porque a massa que se lamenta é da época que as frases de Chorão coloriam os Nicks do MSN (quem nunca?). Porque a massa se lamenta que bons compositores vão-se embora cedo demais, enquanto chovem tchu-tcha-tcha e lekleklek. A massa se lamenta porque o rock está extinguindo...

Você fez sua história, Chorão. E fez a trilha sonora da nossa.


♪ e descobriu que azul é cor da parede da casa de Deus.




comentários pelo facebook:

7 comentários:

  1. Faço muito das tuas palavras as minhas. Hoje vi tanta gente reclamando que justamente hoje, todo mundo -virou fã- mas quem sabe, sabe que não é bem assim.
    Faço uma aposta de quem hoje, tá na faixa dos seus vinte, até 30 anos e não sabe cantar pelo menos UMA musica do charlie brown. Foi algo que fez parte da infância e adolescência de muitos, arrisco dizer todos. As letras não tem nem o que falar. Verdadeiras, claras, com uma mensagem critica e que nos fazia e faz refletir sobre a vida, as pessoas e o mundo.
    Então sim, hoje, estamos profundamente chateados com a morte do chorão e não vejo problema em expressar isso.
    Gostei MUITO do teu texto, e concordo em gênero, número e grau.
    Uma ótima semana
    Beijos, b.

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  2. Também fiz minha homenagem lá no blog. E hoje de manhã no médico, vendo reprisarem show deles, chorei, chorei mesmo, porque ele realmente "deixou" saudades.

    Seu texto ficou lindo, relembrou coisas que todos nós já fizemos ao menos uma vez, como colocar uma letra dele no msn, rs é triste, é lamentável, mas é o fim de todos os caminhos que percorremos nessa vida. Enfim

    Um beijo
    Humble Opinion

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  3. Na semana passada nós vimos o luau Mtv deles aqui em casa e foi engraçado perceber que, apesar de não sermos fãs, ainda assim sabíamos cantar boa parte das músicas. Fez parte sim da história de muita gente, direta ou indiretamente. O que mais me tocou foi perceber que essa angústia que a gente às vezes carrega no peito é real e pode matar.. =/

    Um beijo.

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    1. É triste a gente perder esses ídolos da adolescência. Parece que morremos um pouquinho também.

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  4. Emocionante homenagem ao Chorão, Fernanda. Li compassando o coração nas tuas sutis e tão sentimentais palavras. Você soube contornar bem o acontecimento com delicadas frases, recheando-as com afeição legítima.

    Nunca fui um fã incondicional de Charlie Brown, mas como você e tantos outros, algumas músicas deles embalaram meu coração tão intrincado e desejoso por tesouros e sentimentos peculiares. Porque algumas letras culminavam no peito com fervor e com uma singular alegria. O rock delas tinha poesia pura, que comandava com sutileza nossa alma com rebentos de felicidade sem igual. Músicas que emanavam - emanam - autenticidade. A história delas é a nossa história. De algum momento ou não.

    Ele se foi, mas a trilha sonora criada, permanece. Pra sempre.

    Belíssimo texto Fernanda.
    Adorei!

    Beijos carinhosos!

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