Tudo bem?

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29 de janeiro de 2015


Crescemos em meio a mentiras. Algumas inocentes, outras nem tanto. Algumas até necessárias. Desde cedo aprendemos que os problemas devem ser escondidos da sociedade, trancafiados entre quatro paredes. Desde cedo aprendemos que só se espalha felicidade quando a mesma se concretiza, para eliminar possíveis olhares de inveja e "mau olhado". Não costumo acreditar piamente nesse lance de mau olhado, mas acredito na energia das pessoas: e pessoas emitindo energia ruim para cima de ti, certamente te atinge.

Então, cresci em meio a mentiras. E me acostumei a esconder entre quatro paredes, a esconder nas entrelinhas, todos os fantasmas que me maltratam cada vez que sorrio. Ninguém sabe os medos e anseios que carrego dentro do peito, ninguém sabe as angústias e tristezas que se escondem por trás da rotina que me engole. Ninguém sabe da vida...Também, porque pouca gente se importa. As pessoas tem seus medos, anseios e fantasmas para carregar e alimentar... Como faz para aliviar a si mesmo se nos mergulhamos nos problemas alheios?

Tenho desse hábito de me importar demais. Quero abraçar o mundo inteiro, guardar umas pessoas em potinhos e proteger de tudo de ruim que puder machucar. É tipo como narrou Caio F./Clarice Lispector, num dos trechos que mais amo nessa vida: Um amigo me chamou pra cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso e fui. E eu sempre vou. Mas tem dias que é difícil oferecer um ombro amigo, quando este já está dolorido de tanto carregar o mundo nas costas, de tanto se forçar a ficar em pé, de boa postura e encarando o mundo de frente, como se não houvessem medos, nem tristezas, nem problemas do lado de dentro.

Dia desses me permiti sentar e chorar. Estava no meio do banho quando a tempestade chegou com força. Ali, ninguém me veria. Deixei que o sal escorresse ralo abaixo. Ninguém saberia que no meio de tanta água, haviam umas lágrimas sentidas. O peito doeu um bocado. Ao final do banho, estava disposta e reposta. Ergui o queixo, arrumei os ombros e encarei o mundo como se não doesse.

Mas dói. Mas assusta.

E se você vier me perguntar se está tudo bem, te responderei com o sorriso que já tanto ensaiei: Sim, e você? Tudo bem também?

comentários pelo facebook:

6 comentários:

  1. Ah MF, Maria Fernanda!
    Houve um tempo em que eu "mentia pra mim mesma", quando dizia estar tudo bem pra mim em frente ao espelho e pros outros. Foi um tempo em que eu "carreguei tanto a dor dos outros " que eu não sabia o que fazer com a minha.
    Mas aos poucos fui aprendendo, a não mentir pra mim mesma, a não ultrapassar meus limites emocionais pra ajudar um amigo. Hoje continuo ajudando, mas tento não me envolver psicologicamente com tais problemas, a não mergulhar.
    Já tenho os meus e por sinal, procuro nem falar sobre tais, porque não adianta.
    Sempre dói, mas também sempre há um amanhã que amanhece mais calmo e tranquilo.
    Te cuida guria!
    Beijo

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    1. Na prática, a teoria é mais fácil Ari. Mas vou pensar ;*

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  2. Com essa simples pergunta "Tudo bem?" peneiramos as pessoas que realmente se importam com a resposta e com nós mesmos mas, tanto a responta quanto a pergunta passam batidos pois ninguem realmente se importa com as respostas.

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    1. O problema, Camy, é que muita gente perguntar por perguntar. Poucos querem realmente saber...

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  3. Desaprendi a ser assim. Se dói eu escancaro, aprendi com a minha super maturidade de nem vinte anos, que choro em silêncio dói mais.
    Chora pro mundo, Fê, que a dor é menor.

    http://www.novaperspectiva.com/

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    1. É sempre bom aprender com o desprendimento dos mais jovens, Gabs. Preciso voltar a ter esse "escancaramento" que tinha nos meus quase-vinte, vinte-e-poucos. Eu pouco me importava com o resto do mundo e, de fato, doía bem menos.

      Obrigada xuxuzinha ♥

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