Sábado de manhã

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12 de setembro de 2015


Os sons da metrópole de pé vagavam até sua janela. Alguns mais tímidos e cautelosos não passavam de murmúrios, outros barulhos mais desimpedidos e estridentes não tinham vergonha em se anunciar. Carros acerando, buzinas se queixando, obras em andamento, festas sendo montadas. De todas as partes do bairro vinham sons bater à sua janela. Vários cotidianos aconteciam a todo momento, pessoas vivendo suas vidas alheias ao fato de estarem vivendo-as. Os barulhos da cidade eram como um "bom dia" para aquela que estava disposta a escutá-los. De certa forma ela se sentia reconfortada com todos aqueles estímulos.

Era sábado de manhã e seu dia ainda não havia começado. Deitada entre cobertas e devaneios, ela passava páginas e corria os olhos por frases soltas. Não estava pronta para sair dali ainda, ou talvez não fizesse ideia do que deveria fazer em seguida. As conversas abafadas pelo vento fizeram com que ela deixasse seu livro de lado por um momento e levasse sua atenção para a cortina que se movia na janela entreaberta.

Naquela manhã a cidade parecia diferente. A acústica de sons e vidas chegava aos seus ouvidos de uma maneira mais intensa do que estava acostumada. Talvez fosse ela. Talvez fosse a Lua. Quem sabe? Forçou seus músculos cansados pelo sono a se moverem até a janela do quarto. Ficou por um momento tentando absorver aquela banalidade corriqueira. Alguns poucos carros cruzavam as ruas do bairro com tranquilidade. Para onde eles estariam indo, ela se perguntou. A claridade incomodava um pouco seus olhos, o brilho do sol nas altas janelas dos prédios refletia uma manhã de um sábado qualquer. Em volta de uma tímida piscina, no topo de um dos prédios, duas crianças chutavam uma bola enquanto um deles narrava as jogadas como um radialista. Será que sonhavam em ser estrelas do seu time do coração? Um dia talvez fossem. Do outro lado da rua alguns homens carregavam mesas e cadeiras por um salão de festas. Aquela tarde seria barulhenta.

Ela adorava momentos como aquele, em que a vida simplesmente acontecia. Para onde quer que seus ouvidos se atentassem, algo estaria em andamento, uma eterna obra de pequenos cotidianos. Era como se, naquele instante, ela sequer existisse. O silêncio dentro de si contrastava com o incessante correr do tempo lá fora. Era apaziguante. Se ela prestasse bem atenção podia ouvir diálogos soltos dos passantes na rua. O ecoar das palavras era perfeitamente compreensível para quem estava mais que disposto a escutar. E ela estava.

Podia se perder no martelar das obras, no atrito das rodas dos carros com o asfalto, nos gritos infantis, nas risadas de pessoas que ela nunca chegaria a conhecer. Tinha algo de reconfortante em saber que ninguém notava a sua presença, que ela podia muito bem ser... ninguém. Eram esses pequenos momentos de paz e solidão que ela apreciava mais que qualquer coisa. Ela precisava saber que a vida continuava dia após dia, que o mundo jamais pararia de rodar, que, não importa o que acontecesse, o sol nasceria na manhã seguinte e sempre haveria um novo começo. Como uma manhã de sábado.

Suspirando uma vez ela pulou da cama e se pôs de pé. Estava preparada para se juntar àquelas pessoas. Ela também começaria seu dia, sua quase rotina. Ela também queria ficar alheia ao fato de que simplesmente vivia, podia mergulhar em algumas horas de descanso de si mesma. Estar atenta a tudo pode ser cansativo de vez em quando.

Com um sorriso presunçoso ela abriu completamente a janela do quarto, deixou que os raios de sol beijassem cada quadrado do seu cantinho. Com um tímido risinho ela acolheu os sons meio irritantes e inteiramente queridos. Sabia que haveria sempre alguém fazendo barulho em algum lugar relembrando-a de que não estava tão sozinha assim.

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LAURA BRAND, Complicada, revoltada, escritora aspirante, yogi, sonhadora e dona de um coração alvinegro. Sonha em viajar pelo mundo escrevendo e movendo a caneta da maneira que seu coração desejar. Ama conhecer gente nova com histórias para contar. Apaixonada por animais, livros e sorrisos. Não sabe se explicar mas adora tentar. Está constantemente tentando se encontrar, mas enquanto isso despeja alguns devaneios lá no blog Nostalgia Cinza.
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4 comentários:

  1. "Ela precisava saber que a vida continuava dia após dia, que o mundo jamais pararia de rodar, que, não importa o que acontecesse, o sol nasceria na manhã seguinte e sempre haveria um novo começo. Como uma manhã de sábado."

    E ele nasce na manhã seguinte, de um jeito ou de outro. E os (re) começos são nossa esperança.
    Texto lindo!

    Arrazô Laura!

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    1. Exatamente, a cada dia temos que recomeçar de alguma forma. Levantar da cama, olhar pro sol e criar coragem pra viver o dia.
      Muito obrigada <3

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  2. Tem dias que a única coisa que queremos é que o dia aconteça, independente de tudo. Apenas aconteça, a vida continue passando como sempre passou, nós só precisamos de atenção e um tempinho maior para analisar tudo! Esse texto tá um arraso!
    Beijinhoos :**

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    1. A rotina, às vezes, pode ser inebriante.


      Beijos

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