Escolhas mornas

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8 de outubro de 2015


Sobre caminhos meio tortos, amizades nostálgicas e olhar para trás.

Dizem que nossas escolhas nos definem. Não sei se consigo conviver muito bem com isso, afinal, nem todas as escolhas até aqui foram feitas inteiramente por mim. Sei que grande parte foi sim, mas... não sei. Sou egoísta ao ponto de não querer ser responsável por tudo. Tenho a péssima mania de querer olhar para trás o tempo inteiro e nem sempre isso me faz bem. Jurei para tantas pessoas que algo seria eterno e acabou não sendo. Jurei que tantos momentos seriam duradouros e acabaram se tornando apenas mais um conjunto de lembranças, que eventualmente eu desenterro por conveniência.

Eu tinha tantas certezas que hoje me pergunto como foram se tornar dúvidas... Acho que deixei o tempo correr tão livremente e, quando me dei conta, ele já não estava mais lá. Os momentos haviam terminado, as pessoas foram embora e o presente se tornou passado. Quando foi que tudo mudou tão rápido? Em que momento eu me perdi? Não sei onde minha mente estava, não faço ideia de onde meu coração se meteu. Achamos que sabemos que nada dura pra sempre. Confuso. Verdadeiro. Acredito que tinha esse “achismo” em mim e só agora percebi isso.

Estou escrevendo esse texto porque um incômodo choque de realidade me pegou de surpresa. Uma amizade de longa data me fez voltar a questionar algumas certezas idiotas. Temos consciência de que as pessoas também vivem suas vidas e seguem em frente independentemente se estamos presentes ou não, mas por egoísmo nos recusamos a acreditar. Sempre pensamos: “ah, ela volta. Tudo sempre se resolve.” Mas... E se não for? E se dessa vez foi diferente?

Eu tinha certeza de que, mesmo distante, algumas pessoas seriam eternas. Quando se conhece alguém há tanto tempo, é inevitável criar esse sentimento de conforto para com a pessoa. Eu criei, sabe? Eu tinha certeza absoluta de que não importavam os caminhos, no final o destino seria o mesmo. Algumas amizades parecem grandes demais para ter um fim. Acho que o que mais me incomodou nessa história toda não foi “a curva na estrada” em si. O que me deixou um pouco perplexa foi o fato de que só eu me senti incomodada com aquela realidade. Fomos grandes amigas sim, de anos, mas o fim não me incomodou tanto quanto a sensação que se seguiu. Eu me senti sozinha no meio desse sentimento. Será que eu sou a única que está achando isso tudo muito esquisito? Os incomodados que se retirem? A amizade na qual eu me refiro não era aquela necessária, entende? Não era uma amizade urgente. Pelo contrário, era...

Morna. Podíamos passar semanas sem nos falar e no final não fazia diferença nenhuma. As risadas eram as mesmas, os sorrisos e a fraternidade continuavam sempre lá. Parecia que, por mais que a gente se afastasse, a intimidade permaneceria ali e ambas sabíamos disso. Era bom, era diferente, era morno. Juro que não acreditava que algo tão sutil me tocaria tanto. É nostálgico como eu me senti pequena diante todos esses pensamentos. Eu senti... Saudade. Por mais que eu tentasse negar, por mais que meu orgulho ferido gritasse e esperneasse, eu senti saudade. É ruim quando algo não parece nem perto de ser recíproco, nos sentimos insignificantes.

O que eu estava falando mesmo? Ah, escolhas! Esse sentimento cinzento chamado saudade me atingiu quando eu andava pelos longos corredores da escola e meu olhar cruzou com o olhar dessa estranha conhecida. Foi inesperado, quase atrevido. Em meio segundo, todos esses pensamentos disfarçados de palavras cruzaram minha mente. Tento entender até agora o que aconteceu, procuro pela maldita escolha que foi capaz de mudar tudo. Não acredito que algum dia vou conseguir a resposta que eu quero. Quero tantas respostas impossíveis e inalcançáveis, essa terá que se conformar em ser apenas mais uma entre muitas.

O que aconteceu depois da troca de olhares? Dividimos um sorriso cúmplice e cada uma voltou a seguir seu caminho por aqueles corredores. Continuamos fazendo escolhas como todo mundo e esperamos não errar mais uma vez, ou pelo menos encontrar o caminho certo no meio de estradas erradas. Acho que em cada curva alguém novo e maravilhoso pode aparecer e mudar tudo, mas também espero que, vez ou outra, apareça alguma visita inesperada como essa que me faça abrir algumas portas já fechadas e me faça repensar um pouco.

Nem todas as pessoas precisam nos mudar radicalmente ou causar um estrago. Também não precisamos sempre de alguém completamente novo. Nem sempre o velho é ruim, nem sempre faz mal olhar para trás, foi bom perceber isso. O friozinho na barriga que vem acompanhado da nostalgia pode ser bem agradável. Continuamos a nos cruzar por ai, nos esbarramos ocasionalmente. O sorriso sempre continuou o mesmo, sou bastante grata por isso. É claro que a saudade também faz questão de marcar presença, seria estranho se não marcasse. Algumas vezes aparece grave e dura ou até aguda e sutil. Mas de vez em quando, a saudade vem simplesmente...

Morna.
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LAURA BRAND, Complicada, revoltada, escritora aspirante, yogi, sonhadora e dona de um coração alvinegro. Sonha em viajar pelo mundo escrevendo e movendo a caneta da maneira que seu coração desejar. Ama conhecer gente nova com histórias para contar. Apaixonada por animais, livros e sorrisos. Não sabe se explicar mas adora tentar. Está constantemente tentando se encontrar, mas enquanto isso despeja alguns devaneios lá no blog Nostalgia Cinza.
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2 comentários:

  1. Tenho a absoluta certeza que todo mundo que já passou por uma situação semelhante se viu nesse texto.
    Eu me vi muito nele. E confesso que tenho medo, medo que em uma dessas brigas "depois passa" a coisa passe de vez e não volte mais. Mas maior que meu medo e meu orgulho, é o meu amor, isso sempre me faz voltar atrás mesmo estando certa.
    Entrego a vitória de mão beijada à outra pessoa simplesmente porque quando paro pra pensar na minha vida sem os amigos que eu tenho, eu não consigo ver nada, porque já os tenho há tanto tempo que não me lembro da minha vida sem eles nela.
    Seu texto é muito sincero. Parabéns ♥

    Nayandra,
    www.ultimobiscoito.com

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  2. "Em meio segundo, todos esses pensamentos disfarçados de palavras cruzaram minha mente.." - Essa Laura sempre que passa por aqui fica brincando de traduzir tudo em palavras. Coisa linda de se ler e é impossível não relembrar escolhas passadas, impossível não se sentir... Morna.

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