TERMINEI INDO

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12 de agosto de 2016

plural com Giselle F. | ler ao som de "terminei indo"

Liguei o computador, pluguei o fone de ouvido e abri minha pasta de músicas, sem saber exatamente o que eu queria ouvir. Selecionei todas, coloquei pra executar e ativei o modo aleatório. Hoje foi um dia de humores diversos, então nada mais justo do que a playlist também ser.


A primeira música da lista me acertou como um tiro à queima-roupa. Uyara Torrente sussura docemente palavras ásperas, poeticamente encaixadas para dar um tapa de luva de pelica com maestria. Terminei Indo ocupou o topo de todas as minhas listas pós-término por diversos meses e, ainda assim, me esqueci da letra como quem esquece onde colocou um brinco e, quando menos espera, pisa nele em algum canto do quarto. Só que nesse caso foi a letra que pisou em mim.

Lembrei das tantas noites que caminhei sem rumo e hoje entendo que a busca era muito mais por um outro eu do que por um lugar. Uma versão minha perdida — talvez apenas esquecida — num esquina qualquer, numa mesa de bar, num fundo de um ônibus ou numa avenida principal. Me perdi há tantos anos que esqueci o caminho de volta pra casa. Eu era uma estranha no meu próprio mundo e foi preciso acordar sozinha em pleno verão pra entender que não era de um outro alguém a falta que me consumia. Era saudade de mim.

A verdade me atingiu como um soco na boca do estômago e eu senti um pouco de falta de ar. Eu tinha rodado o mundo para reencontrar a pessoa que me fizesse inteira, sem nem me dar conta que a pessoa que procurava estava comigo, o tempo todo. Forcei-me tanto olhar para o lado de fora, que esqueci de olhar para o lado de dentro. Eu estava um caos.

Encarei-me demoradamente. Fiquei ali, parada no meio da sala, enquanto a música tocava lenta. Eu vi tanto de você nos pedaços de mim, que não me reconhecia. Quando foi exatamente que me permiti ser qualquer pessoa, que não eu mesma? Eu saberia em quem por a culpa, mas nessa altura do campeonato, seria injusto culpar qualquer pessoa salvo eu mesma. Eu deixei você fazer o que quisesse de mim — e assim você fez.

Ali, entre uma melodia e outra, me despi. A nudez pairou no meio da sala como uma ofensa incomum. Encarei-me. Não deixei um pedaço teu sequer. Eu me deixei ali, inteira. Matei saudade de mim e me refiz, como era. Pedaço por pedaço. Decidi, não tarde demais, que eu sou meu próprio lar, minha melhor companhia.

"E a minha casa é pra onde vão meus pés"


comentários pelo facebook:

6 comentários:

  1. Inspirado em mim à alguns meses atrás? O.o ahahahhaah

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    1. Né? Lembrei super da conversa que a gente teve ♥

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  2. Adorei o texto!

    http://annahandtheblog.blogspot.pt/

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  3. Eu fico até sem jeito/sem graça de repetir elogios pra forma como a gente se entende. Você sabe bem que fazer plural contigo é como sentar no chão da sala pra tomar cerveja Sol com limão. Não dá vontade de parar. <3

    www.oamorebrega.com.br
    www.gisellef.com.br

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    1. Não fique. A recíproca é mais que verdadeira ♥

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