Não tá fácil ser eu

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12 de setembro de 2016


Tá tudo errado. Estou perdida, outra vez, diante do espelho. Eu me encaro e não me vejo. Não nos vejo. Não sei onde foi que me perdi, nessa tentativa de ser mais do que eu podia. Talvez tudo seja uma mentira. Essa não sou eu de verdade. Ou talvez, não sou inteira. Escorreguei no meio de uma bebedeira e falei demais. Escapei, entre as letras, entre as linhas. Cacos e pedaços de mim, em cada entrelinha. Em cada suspiro. Piro e não me reconheço. Eu não sou essa que te apresento, mas eu gosto dessa moça que me fantasio. Eu sou um punhado dela também, mas tem mais, você entende? Eu sou meio leoa. Alimentei tempo demais essa fera que vive aqui dentro, sem nem me dar conta que ela andava adormecida. Mas o rugido que saiu foi tão fraquinho, que mais parecia um gatinho assustado. Você é um leão esfomeado e não vê nada além da carniça. E eu me finjo de banquete. Mas esse falsete não me satisfaz: eu preciso de mais.

Tá tudo errado. Estou perdida, outra vez, diante do espelho. Eu vejo a leoa que me transformei, para agradar. Agradar quem? Na íris, o brilho saudoso de mim, de outras épocas. Já fui fera, já fui bicho. Mas preciso das tantas outras facetas para ser por inteiro. O todo, você não vê. Você não enxerga. Eu sou mais do que as linhas tortas que desenho. Sou mais do que as fantasias que invento. Tem um menina — tímida — escondida aqui dentro. E para ser inteira, preciso de um ponto de equilíbrio.

Não tá fácil ser eu. Tatuei a imaginação na pele, numa tentativa alucinada de enraizar o que ficou. E me sinto insana por pensar que é passado, se, de fato, nada passou. Pareço louca e, talvez, eu seja. Vem cá. Vamos tomar uma cerveja. Retomar a conversa. Tem tanta palavra para ser dita, tanta linha para ser lida, tanta entrelinha para ser (mal)interpretada. Tá faltando um ponto final no nosso papo. Tá faltando encerrar o assunto. E eu não sei lidar com o inacabado. Não vê que tá tudo errado?

Eu li você de um jeito todo torto. E você me leu pela metade: tem mais de mim do que aquilo que foi exposto. Falta explorar os detalhes não ditos — aquilo que fica depois do explícito...

(...)
Deito minha cabeça em teu peito, fazendo-o de travesseiro. Você acaricia meus cabelos, tragando um cigarro barato. Somos só respiração, não papo. Teus olhos brilham de cansaço. Minhas mãos riscam a brancura da tua pele, em movimentos circulares perfeitos. Terminou a nossa festa. Lençol suado é o que nos resta. Você beija suavemente a minha testa e me aperta contra si. E eu me desfaço ali, sendo toda, sendo inteira. Pele e alma nua. Despida. E completamente tua

(...)
Não vê que tá tudo errado?



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2 comentários:

  1. Estou quase roubando o texto, de tão EU que ele é. Você escreve como ninguém, dona Mafê!
    PS: que template lindo, de onde é? <3

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  2. Nossaaa! Que texto mais profundo Mafê *-*
    eu admiro muito a sua escrita, você escreve muito bem, parabéns pelo texto <3

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