tudo destoa

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22 de novembro de 2016



Demorei uns bons minutos para reconhecer a vida. Eu abri os olhos antes do despertador tocar e te procurei ao lado meu, só para te ver dormindo — um hábito que adquiri recentemente. Mas não tinha ninguém ali, só o lençol vazio. As paredes brancas riram da minha cara assustada. O coração ficou miudinho dentro do peito e eu voltei a dormir, enquanto as lágrimas escorriam em silêncio molhando o travesseiro. Torci para voltar para algum sonho bom.

O despertador tocou e fez silêncio. As paredes brancas me pareceram estranhas e tristes. Ignorei-as. Sentei na cama abraçando as pernas, respirando o resto do perfume que tinha se perdido entre fronhas e pijamas. Respirei fundo incontáveis vezes e me desfiz do abraço solitário, indo buscar um café que me trouxesse o ânimo que a rotina roubava.

Fiz um café forte, que desceu amargo goela abaixo. Não, não que o café estivesse ruim, só faltou a piada. E, sabe como é, o silêncio maltrata. O café acabou tão depressa como todo o resto. Eu fiquei encarando a caneca vazia e senti os olhos arderem de novo. Deixei. (...)

Tudo aqui estava em silêncio. Não tive coragem de ouvir música e precisei de oitenta e cinco tentativas para — finalmente! — desfazer as malas. Estava uma bagunça, assim como eu. Eu vi a zona e achei bonita, procrastinei outro tanto e, num surto, resolvi desfazer tudo de uma vez. Agora a roupa já está lavada, as coisas já estão guardadas, tá tudo no seu devido lugar — menos eu mesma.

Deitei no sofá, me abraçando. Fiquei encarando o céu que tá exatamente da cor que deveria estar: cinza. As folhas da árvore estavam balançando com o vento, o mar estava agitado e batendo com força na areia. Eu encarei tudo, sentindo nada. O silêncio ecoava por todos os lados. De fora para dentro, de dentro para fora. A vida escorrendo em câmera lenta. Desconexa.

Eu fiquei observando a rotina se desenrolar. A moça que passeava com o cachorro, o passarinho que veio descansar na janela, o cheiro do almoço do vizinho... Tudo na mais perfeita quietude. Nem os carros fazem barulho lá fora. Nem o vento se agita a ponto de criar um som. Nada. E aqui dentro tudo grita. E aqui tudo destoa. Eu vejo a vida correr... Mas, e você? Cadê?


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2 comentários:

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