há saudade em tudo que vejo

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4 de dezembro de 2016

"Eu sou um aeroporto. 
Chegadas e partidas são a única certeza na minha vida".
(Lucas Silveira)

Eu vi a saudade da janela.

Ela estava camuflada no concreto de São Paulo, um pouco escondida na névoa poluída que sombreava, levemente, a cidade. A medida que tudo lá embaixo ficava pequeno, a saudade ficava maior. Se agigantava em cada detalhe que estava ficando para trás e me diminuía um tanto mais. Eu me senti esmagada contra a poltrona, pequena diante das imensidões que via da janela. A saudade era a maior delas.

Tudo virou uma coisa só.


A saudade era lá embaixo, a saudade era aqui em cima. A saudade era eu, todinha. Chovia no meu rosto. Deixei. Botei os fones de ouvido, na expectativa da música calar a saudade que gritava. Me enganei. As melodias me invadiram com ferocidade. Tudo, tudo, tudo era saudade. A música. A chuva. O voo. O sol se pondo. A estrela, única, que surgiu no céu.

Achei que acostumaria com essa certeza de chegadas e partidas. Deveria estar vacinada contra as despedidas, mas é sempre tudo novo. A saudade já me sorri antes mesmo de eu partir. Fica ali, parada, observando atenta o último abraço e me dá a mão assim que desfaço o laço.

Maltrata.

Eu vi a saudade da janela. A cidade apequenou-se diante dela. Os detalhes vinham cutucar a memória. A memória, a música, a chuva, o sol se pondo, a estrela, tudo, tudo alimentava a saudade, que se agigantava. Ela caiu, pesada, no meu colo e me senti esmagada contra a poltrona. Fiquei miúda diante das imensidões que via da janela.

A saudade era a maior delas.

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