retratos do cotidiano

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19 de maio de 2017


“Sonhar pode”, dizia o grafite que vi no muro, em plena avenida. O trânsito é caótico e lento às sete e meia da manhã, mas chovia. Então o caos era um pouco maior. Os desavisados do tempo, andando de bicicleta ou a pé, aceleravam pedaladas e passos, buscando espaço entre carros, caminhões e containers. A vida da cidade parecia vida de cidade grande. Eu diminuí a velocidade e aumentei o volume. A música chegou numa surpresa boa aos ouvidos. Sorri.

A melodia, letra e tom caíram numa lágrima ridícula, que se formou no canto do meu olho que sorria. Era o que eu precisava para enviar à um amigo. Salvei o nome num bloco de notas, escrito rapidamente enquanto o semáforo fechava. Degustei a música como há tempos não fazia.

A música acabou e no rádio não tem repeat. Minha frustração durou três segundos e meio, até começar um reggae bom, que conhecia, mas não sabia quem cantava. Outro presente. Outra anotação no bloco de notas. Outro semáforo fechado.

A sexta-feira começou a dez quilômetros por hora. Todo mundo apressado ao meu redor, num contraste gritante. Não adiantava, sabe? O mundo não fluía, simplesmente. Procurei a música, a primeira. Enviei, o link para ouvir e um sorriso. Espero, loucamente, que o sorriso chegue pelo telefone também.

Um moço sem pernas passou andando de bicicleta, buscando espaço entre as latarias. Pedalava com as mãos, numa daquelas bikes adaptadas. Usava um capacete azul, meio metálico, bem bonito. Tinha um carro mal estacionado e o moço da bicicleta precisaria invadir a rua. Eu, que já andava lentamente, segurei ainda mais a velocidade do carro e dei passagem. Ele pedalou com uma mão só e, com a outra, fez um gesto gentil, agradecendo. Quando passei por ele, ele me sorriu.

Outro semáforo fechado. Tinha uma mulher, já um pouco mais velha, entregando panfletos. Ela vestia uma calça azul e uma blusa de manga laranja. Hoje amanheceu friozinho e garoava, mas tinha uma mulher entregando panfletos no semáforo. E ela cantarolava e dançava, entre um carro e outro. Ela entregava panfletos e sorrisos. O panfleto que peguei foi para o lixo. Mas o sorriso guardei comigo.

Sexta-feira. Cinza. Frio. Saí da cama cedo, enfrentei o trânsito, as buzinas, as filas. E, antes das oito da manhã, já havia ganhado o dia. Incontáveis vezes.




MAFÊ PROBST
Engenheira, blogueira, escritora e romântica incorrigível. É geminiana, exagerada e curiosa. Sonha abraçar o mundo e se espalhar por aí. Nascida e crescida no litoral catarinense, não nega a paixão pela praia, pelo sol (e pelo frio) e frutos do mar.

FANPAGE | @MAFEPROBST | @INSTADAMAFE


PS: Quantos detalhes te cercam todo dia e você não vê? 

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1 comentários:

  1. Mafê! ♥ Sensacional! ♥ E a vida é assim, um conjuntinho de felicidades. E a felicidade? Um conjuntinho de pequenos momentos. Ouvir música boa, perceber o que os outros não percebem. Estava dentro daquele carro também! Com certeza! Adorei.

    ACESSO PERMITIDO. ♥
    www.acessopermitido.com

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